Vias visuais

In Introductory Lecture: Assessment of Low Vision for Educational Purposes and Early Intervention

Lea Hyvärinen

Tradução de Catarina Porto

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O objectivo da avaliação funcional é ficarmos a conhecer as capacidades e os problemas visuais das crianças para melhor compreendermos as suas necessidades em termos de intervenção precoce e de educação especial, aplicando-se, igualmente, à reabilitação de adultos.

A avaliação tem três etapas:

1. Avaliação da qualidade da informação visual recebida, a qual pode ser afectada por alterações nas estruturas oculares, nos nervos ópticos, nas longas vias visuais ou nas funções óculo-motoras. A qualidade da imagem é avaliada através da medição da acuidade visual, da sensibilidade aos contrastes, do campo visual, da visão de cores, da adaptação ao claro e ao escuro, da visão binocular e tridimensional.


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2. Avaliação qualitativa das funções visuais “superiores”, o que, na educação especial e na psicologia se designa por funções visuo-perceptivas. Todos os testes acima mencionados requerem a utilização das funções visuo-perceptivas. A medição da acuidade visual, por exemplo, assenta no reconhecimento de formas geométricas abstractas, letras, números ou símbolos pediátricos, aos quais chamamos, simplesmente, optótipos.


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3. Avaliação dos efeitos da deficiência visual no desenvolvimento e nas necessidades educativas especiais da criança, o que, nos adultos, corresponde às necessidades de formação contínua, condições de trabalho, apoio social e autonomia. A grande dificuldade no que diz respeito às crianças é o facto de o desenvolvimento das funções cerebrais assentar em informação visual que “sai” dos parâmetros normais, muitas vezes, desde o início. O tipo e a gravidade das alterações nas funções visuais variam de criança para criança. Há que avaliar as capacidades funcionais de cada criança em particular, tendo em conta o efeito da deficiência visual na situação presente, as experiências passadas e o prognóstico da doença.

Antes de iniciarmos a avaliação, há que ter presentes alguns conhecimentos sobre a informação e as vias visuais. A informação visual tem três componentes:


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Vemos formas, vemos cores e vemos movimento. Na avaliação funcional, cada uma destas componentes deveria ser testada, o que, normalmente, não acontece. Nos casos de baixa visão, apenas uma parte da visão de formas, a capacidade para reconhecer optótipos, é avaliada, i.e., mede-se a acuidade visual em alto contraste, mas não em baixo contraste. A capacidade para discriminar características ou expressões faciais, a orientação de linhas ou tamanhos não é, de todo, avaliada. A visão de cores raramente o é e a percepção do movimento é-o apenas em alguns contextos experimentais.


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Há que avaliar, igualmente, variáveis como o tamanho e a qualidade do campo visual, a adaptação ao claro e ao escuro e as funções óculo-motoras.


Slide 8 A.   Slide 8 B.
 

A figura 8A ilustra as vias visuais. A informação visual é transmitida a partir das células ganglionares da retina, através das longas fibras do nervo óptico, até ao corpo geniculado externo (LGN), de onde é enviada para o neurónio mais próximo, o qual, por sua vez, a envia para o córtex visual primário (V1). Como pode ver-se na imagem, a informação visual é, simultaneamente, projectada através de uma outra via até grupos específicos de células localizadas junto ao corpo geniculado externo, o colículo superior (SC). De notar que há vias que enviam informação do cortex visual primário novamente para o corpo geniculado externo e para o colículo superior. Este desvio, bem como muitas outras particularidades das vias visuais, funciona como um filtro eficaz que impede uma parte da informação visual de entrar nas funções corticais superiores. Dada a enorme quantidade de informação recebida, grande parte tem de ser devolvida para que as componentes funcionalmente relevantes possam ser utilizadas eficazmente. A figura 8B mostra este fluxo de informação “dispensada” a regressar ao corpo geniculado externo. A selecção da informação visual ocorre a todos os níveis corticais, o que significa que a forma como é processada condiciona o tipo de informação “escolhida” entre toda a informação recebida.

A percepção que temos do mundo, mais do que uma imagem exacta do meio físico que nos rodeia, é uma construção feita pelo nosso cérebro.


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Esta perspectiva lateral das vias visuais ilustra ainda melhor a sua estrutura. Há duas vias principais, a retino-calcarina, a qual vai desde a retina, através do nervo óptico (ON), do quiasma (CH) e do corpo geniculado externo (LGN), até ao córtex visual primário (igualmente designado por cortex calcarino), e a via tectal, a qual vai através do colículo superior (SC) e da pulvinar (P), até ao cortex associativo. As vias visuais transmitem informação por meio de diferentes camadas neuronais. A mais longa (composta por, aproximadamente, 80% das fibras nervosas) é a via parvocelular, a qual envia toda a informação relativa à cor e ao preto e branco de alto contraste. As suas fibras nervosas são finas e transmitem a informação relativamente devagar. A via magnocelular (10% das fibras) transfere toda a informação relacionada com o movimento e com o preto e branco de baixo contraste. As suas fibras são grossas e têm uma velocidade de transmissão elevada. A partir do córtex visual primário, a informação segue, essencialmente, em duas direcções: em direcção ao lobo parietal, através do fluxo dorsal (DS) (funções relativas ao "onde"), e em direcção ao lobo temporal, através do fluxo ventral (VS) (funções relativas ao "quê"). Em todos os níveis de vias visuais há retorno eficaz de informação, pelo que as vias visuais são "vias de dois sentidos"..


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A via magnocelular projecta a informação a partir das grandes células ganglionares da retina até às células maiores do corpo geniculado externo (magno = grande em Latim) e, daqui, até ao córtex visual primário (v1) através da via retino-calcarina, passando sobre o colículo superior, até inúmeras funções subcorticais e funções visuais parietais. A via magnocelular transmite toda a informação transitória relativa ao movimento e a informação relativa ao preto e branco de baixo contraste. Como as fibras são grossas, a velocidade é elevada. A via magnocelular é mais proeminente na via tectal do que na via retino-calcarina.


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Neste acetato vemos um tipo de informação visual transitória, a luz cintilante. Esta informação é criada pela projecção alternada de duas imagens com níveis de luminosidade diferente, por períodos muito curtos cada uma. À medida que os níveis de luminosidade das duas imagens se aproximam, o contraste entre as duas vai diminuindo. Quando a diferença é tão pequena, torna-se indetectável, atingindo-se o limiar da sensibilidade àquela frequência


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Este acetato mostra uma grelha que parece estar em movimento. Quando as linhas são deslocadas, ao mesmo tempo e para o mesmo lado, uma fracção da sua largura, apercebemo-nos do movimento. Se variarmos a velocidade do movimento e a largura e o contraste das linhas, podemos medir os níveis de percepção do movimento.

A percepção do movimento pode ser medida, igualmente, utilizando-se grupos de pontos que, ao mover-se à mesma velocidade, assemelham-se a uma forma em movimento (teste do Pepi). Bastam alguns pontos em movimento para obtermos a função, como podemos ver no acetato 12B.


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A via parvocelular, a partir das células ganglionares pequenas retinianas, transmite toda a informação relativa à cor e ao preto e branco de alto contraste. As fibras nervosas são finas, pelo que a velocidade de transmissão é baixa. No nervo óptico, 80% das fibras nervosas são parvocelulares e 10% são magnocelulares.


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Nestes dois acetatos, podemos ver algumas características importantes do funcionamento das vias visuais. Temos um ponto cinzento no canto superior direito e um sinal de STOP no canto inferior esquerdo. Se olharmos para o sinal de STOP durante alguns segundos, mantendo a fixação, o ponto cinzento desaparece. Ou seja, para o conseguirmos ver, teríamos de olhar para uma imagem na qual o ponto cinzento não ficasse para além dos 15º a 20º do nosso campo visual central.


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Neste acetato temos o ponto cinzento, o sinal de STOP e um novo ponto a piscar. Agora, se fixarmos o sinal de STOP conseguimos ver o ponto a piscar. Se conseguirmos fixá-lo durante mais algum tempo, observamos que não só continuamos a ver o ponto a piscar como, de vez em quando, vemos igualmente o ponto cinzento.


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A partir do córtex visual primário, a informação visual é disseminada em mais de 30 áreas corticais diferentes, para funções visuais “superiores” específicas, fluindo em duas direcções principais: para o lobo parietal, através do fluxo dorsal, e para o lobo temporal inferior, através do fluxo ventral.


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No fluxo ventral, encontram-se funções de reconhecimento, percepção de cores e descriminação de figura-fundo. No fluxo dorsal, encontramos funções como a coordenação olho-mão e a orientação espacial, egocêntrica e alocêntrica.


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Se memorizarmos esta imagem das vias visuais, ao avaliamos as funções visuais lembrar-nos-emos de observar as várias funções visuais paralelas. Torna-se, igualmente, mais fácil perceber por que razão algumas funções isoladas podem estar deterioradas ou ausentes enquanto outras estão intactas ou praticamente intactas.


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Em suma, o sistema visual é um sistema de vias paralelas. Nos olhos, existem dois sistemas sensoriais: os cones, para a visão diurna, e os bastonetes, para a visão nocturna (no capítulo sobre a retina, encontra-se mais informação acerca das células sensoriais). Nos nervos ópticos e nas vias visuais existem vários tipos de fibras nervosas, as mais importantes das quais são a via magnocelular e a via parvocelular. A informação visual chega às funções corticais e subcorticais através da via retino-calcarina ou da via tectal. A partir do córtex visual primário, a informação flui em direcção ao lobo parietal, através do fluxo dorsal, ou em direcção ao lobo temporal, através do fluxo ventral.


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